Comunicação

Não é fácil andar à frente

Publicado em : 13/09/2019

 

 

Não é fácil andar à frente

 

 

por André Mols*

 

Um dos meus autores favoritos é Lima Barreto. Brasileiro, negro, pobre, marginalizado, mas genial. Incomodou tanto que tiveram que criar um tal “Pré-Modernismo” para encaixar sua obra, já que pegaria mal se alguém percebesse que ele já era modernista antes da Semana de Arte Moderna de 1922. É fogo mesmo andar à frente – mais difícil do que ficar comendo poeira lá atrás.

Um dos textos que mais gosto na obra dele é o conto “A nova Califórnia”. É justamente este conto que serviu de inspiração para a telenovela “Fera Ferida”, que foi exibida entre 1993 e 1994. Para quem conhece a história da personagem principal, Raimundo Flamel, esta foi construída a partir da história de Nicolas Flamel, alquimista francês que viveu no século XIV. O objetivo dos alquimistas era transformar materiais diversos em ouro, e eles buscavam também o elixir da juventude, dessa maneira driblando a morte.

O texto é muito bom e apresenta elementos atemporais, que nos dias de hoje você encontra facilmente por onde passa. Em tempo, a literatura deve mesmo apresentar o mundo a partir da ótica do artista. Recentemente o Lima Barreto tem sido motivo de discussões e retomadas relevantes, que buscam resgatar a sua importância dentro do contexto da produção literária brasileira. Infelizmente, ele faleceu em 1922, portanto, há quase 100 anos. Mesmo assim, antes tarde do que nunca. Certamente pagou o pato por estar à frente do seu tempo.

O que me move na escrita deste texto hoje é a necessidade de tratar um pouco do desafio que é fazer algo de relevante em um contexto que não quer que isso aconteça. Quando os astros estão a nosso favor não é necessariamente fácil, imagine então se você incomoda por não ficar dentro da caixinha, sendo perfeitamente conivente com o modelo? Tenho reiteradamente tratado deste tema, e percebo que ele ainda me incomoda, e incomoda a muitos outros, ainda bem. Incomoda porque, ainda que estejamos inseridos no século XXI, ainda que tenhamos ido à Lua 50 anos atrás, ainda que os exames de imagem nos mostrem o corpo humano em funcionamento em tempo real como os alquimistas nunca sonhariam; ainda assim avançamos pouco quando o assunto é mudança e inovação.

É lógico e fácil de entender. Na verdade, quem leu um pouco da mitologia Grega, ou estudou, mesmo que superficialmente, a motivação por detrás das pinturas rupestres; entenderia um pouco melhor. Temos medo do que não conhecemos. Temos medo do que não entendemos. E o pior é que, se não entendemos, e por consequência temos medo, ocasionalmente trabalhamos de maneira a não contribuir para que os avanços aconteçam. Ora, afinal de contas por qual motivo eu deveria dar um voto de confiança a Thomas Edison e essa tal de eletricidade? Acho que é falta do que fazer. Pelos boatos que ouvi, ele é mais um desses malucos tentando mudar o mundo inutilmente. Convenhamos – achar que o planeta é redondo é uma loucura. Coitado deste tal de Vygotsky... não sabe nada.

Não dá para abraçar tudo. Não é disso que estou falando. Não é possível simplesmente concordar com qualquer proposição – e todos os dias surgem muitas e muitas. Na era da Internet 4.0, somos vítimas de tsunamis diários que nos trazem soluções e mais soluções para todos os problemas do mundo. Se fosse tão fácil assim, não estaríamos onde estamos. De uma coisa tenho certeza, no entanto. Se fôssemos mais abertos às inovações que realmente trazem avanços; se fôssemos menos preconceituosos ante o desconhecido; se tivéssemos menos medo de errar; se nosso exercício de escuta empática fosse mais amplo, não viveríamos neste mundo, mas sim em um mundo muito melhor. Os alquimistas não encontraram os resultados que buscavam. A proposição estava para além das suas possibilidades.

Apesar de tudo, podemos fazer a diferença no mundo, e buscamos isso através da educação. Não de uma educação amarrada, parafusada no chão, calcada na punição e no medo; calcada no sonho prometido por uma fórmula desgastada, mas sim de uma educação voltada para a vida, para a saúde, em prol do desenvolvimento de todos que não estão com medo até hoje do lado escuro da lua.

Se você está em busca de uma resposta, pode ter certeza de que encontrará apenas uma.

Quanto a mim, é a dúvida que me move.

 

*André Mols é Gestor de Desenvolvimento e Currículo da Escola Interamérica - Unidades I e II e músico.


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