Comunicação

Brincar e aprender a vida

Publicado em : 06/09/2019

 

 

Brincar e aprender a vida

 

por Thais de Lucena*

 

Vivemos atualmente um contexto social em que há excesso de informação circulando e, para toda e qualquer questão, existe receita, padrão, promessas de solução rápida e instantânea. Na criação de filhos(as) isso não é diferente!

Já percebeu que existe uma pressão não declarada, e às vezes até declarada, para que nossos filhos realizem uma série de atividades? Você não tem a sensação de que não está cumprindo seu dever caso seus filhos não estejam matriculados em pelo menos três ou quatro cursos por semana, seja de natação, balé ou basquete? Quantas vezes você já ouviu pais e mães dizendo que no sábado estarão ocupados levando os(as) filhos(as) para um jogo, uma aula ou outra atividade?

Em compensação, quando foi a última vez que você ouviu alguém dizer: “No sábado, minha filha vai brincar”?

E “brincar” não quer dizer tocar violino, praticar algum esporte ou ir a uma festa organizada por adultos, usamos o termo no sentido de deixar a criança livre para fazer o que quiser, com amigos(as) ou sozinha, como bem entender, por quanto tempo for. Até mesmo pais e mães que permitem a existência desse tipo de coisa podem, no fundo, se sentir culpados em admitir. É que no fim das contas achamos que estamos sendo pais e mães melhores quando ensinamos alguma coisa, enriquecemos o pequeno cérebro da criança ou fazemos com que pratique um esporte. Brincar muitas vezes parece desperdiçar o valioso tempo de aprendizado. Mas será que isso é verdade?

Nos Estados Unidos, nos últimos cinquenta anos, o número de horas em que crianças ficam livres para brincar sofreu uma drástica redução. Além da televisão e da tecnologia, contribuem para isso o modo que os pais e mães sentem de que os(as) filhos(as) se machuquem e um desejo que sentem de “capacitá-los”. Todos esses fatores roubaram muito tempo que antes era dedicado a brincar.

Como pais e mães, ficamos tranquilos(as) quando nossos(as) filhos(as) demonstram estar progredindo. Gostamos de vê-los(as) jogar futebol e fazer a torcida vibrar, ou de assistir suas apresentações de balé e recitais de piano. Temos orgulho de dizer que ele ou ela ganhou uma medalha ou um troféu, aprendeu uma música nova ou sabe o alfabeto em inglês. Assim sentimos que somos bons pais e mães. Fazemos isso com a melhor das intenções, porque, ao proporcionar mais instrução e atividades estruturadas, treinamos nossos filhos e filhas para se tornarem adultos prósperos e bem-sucedidos. Mas será que é assim mesmo?

ESTAMOS SOBRECARREGANDO NOSSOS(AS) FILHOS(AS)?

Muitos pais e mães se esforçam para colocar os(as) filhos(as) na escola antes ou para que avancem um ano. As crianças aprendem a ler e a fazer contas cada vez mais cedo, e nos orgulhamos de como são inteligentes. Na cultura americana, o cérebro e as habilidades esportivas são altamente valorizadas. Movem-se montanhas para que os(as) filhos sejam bem-sucedidos. Queremos sinais tangíveis, mensuráveis e visíveis do sucesso. E então questionamos o brincar. Brincar pode ser divertido, mas o que a criança de fato aprende com isso?

E se dissermos que brincar livremente deixa as crianças menos ansiosas e mais resilientes? Está provado que a resiliência é um dos fatores mais importantes para o sucesso de um adulto. A capacidade de “dar a volta por cima”, controlar as emoções e lidar com o estresse é fundamental para um adulto saudável e produtivo. Hoje, sabe-se que a resiliência previne não só a ansiedade, mas também a depressão. E uma das formas mais eficientes de desenvolvê-la é atribuindo grande importância à brincadeira.

Em 1971, o casal Niels e Erna Juel-Hansen elaborou o primeiro método pedagógico baseado na teoria educacional que incorpora a brincadeira. Eles descobriram que brincar livremente é crucial para o desenvolvimento da criança. Na Dinamarca, não existe um enfoque exclusivo na educação ou no esporte, e sim na criança como um todo. Pais e professores se concentram em coisas como a socialização, autonomia, coesão, democracia e autoestima. O objetivo é que a criança desenvolva resiliência e uma forte bússola interna que vai orientá-la ao longo da vida. Os dinamarqueses sabem que os(as) filhos(as) terão uma boa educação e adquirirão diversas habilidades. Mas a verdadeira felicidade não vem apenas da boa educação. A criança que aprende a lidar com o estresse e a fazer amigos, mantendo uma perspectiva realista, tem talentos bem diferentes daqueles que desenvolvem apenas as habilidades cognitivas. Esses talentos estão relacionados a todos os aspectos da vida, e não apenas á carreira profissional. Afinal, de que adianta ser um gênio da matemática que não consegue lidar com altos e baixos?

Quando se exige constantemente, e exercendo-se pressão, que as crianças obtenham alguma coisa – boas notas, prêmios ou destaques – elas não conseguem desenvolver uma motivação própria. As crianças precisam fundamentalmente de espaço e confiança, o que lhes permite ter controle sobre sua vida e resolver os próprios problemas, o que pode e deve ser experimentado na brincadeira e na socialização. É isso que cria autoestima e autoconfiança genuínas, porque parte do incentivo vem da própria criança – desejo, motivação, engajamento, autorregulação – e não de outra pessoa.

Brincar, ter tempo livre para escolher o que deseja fazer, estar em companhia de amigos(as) em brincadeiras não dirigidas é ter oportunidade de aprender a vida.

 

Texto adaptado por Thais de Lucena, do livro “Crianças Dinamarquesas – o que as pessoas mais felizes do munfo sabem sobre criar filhos confiantes e capazes”, de Iben D. Sandahl e Jessica J. Alexander.

 

*Thais de Lucena – Educadora e Orientadora Educacional -Unidade I

 

 

 

 


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