Comunicação

Avaliação da aprendizagem em aulas não presenciais

Publicado em : 29/05/2020

 

 

Avaliação da aprendizagem em aulas não presenciais

 

por André Mols*

 

Antes de mais nada, é necessário que tenhamos um entendimento mais claro do que vem a ser o conceito de “avaliação”, que vem do Latim, e tem a intenção de comunicar a ação de “dar valor a”. Dar valor significa, portanto, determinar qual o nível de importância que algo tem para alguém. Se queremos “padronizar” este nível de importância, por sua vez, precisamos estabelecer critérios, que limitam até onde pode ir este entendimento, retirando o elemento subjetivo desta equação.

Todos nós já ouvimos falar bastante sobre este assunto, e certamente temos algum tipo de “opinião” sobre ele, ainda que muitos não tenham estudado formalmente algo voltado para o tema. Estas opiniões, naturalmente, têm como base a nossa própria experiência, tendo em vista que, acredito, todos nós passamos por algum tipo de processo de escolarização e, este, por sua vez, “mediu” o que sabíamos em algum tipo de processo de avaliação, “dando” mais ou menos valor ao que conseguimos reproduzir a partir de determinados questionamentos propostos pelos nossos avaliadores. Criou-se, assim, um determinado paradigma para cada um de nós, acerca do que seria mais ou menos adequado.

Predominantemente, os processos avaliativos giram em torno de um registro escrito, produzido pelo estudante, que é, por sua vez, “corrigido” por um ou mais indivíduos que “professam” saberes, ou ainda, alguém responsável e considerado apto para o ato de dar mais (ou menos) valor ao que está escrito. Este documento escrito, por sua vez, tem caráter de “prova”, que “comprova”, para um, o que o outro sabe ou não sabe.

Todo este preâmbulo se faz necessário, na medida em que minha reflexão caminha na direção de paradigmas que são construídos e validados socialmente, considerados dessa maneira como adequados, justificáveis, com força de “lei”, na verdade, contribuindo muitas vezes para a manutenção de um determinado status quo, que garante a permanência de uma determinada relação de poder no âmbito da aprendizagem, separando “quem sabe”, de “quem aprende”.

Esses paradigmas incluem, ainda, outros tipos de análise valorativa, para além de informações e conceitos, e envolvem o “valor” que o aprendente dá à oportunidade de “aprender” com quem “sabe”. Entramos então em outros campos, como da ética, do respeito, da responsabilidade, do comprometimento, do engajamento. Novamente, a subjetividade aparece “atrapalhando” um processo, que, outrossim, deveria mensurar, sob forma de escala numérica, um ou mais saberes.

Meu tópico hoje é “avaliação da aprendizagem em aulas não presenciais”. Meu primeiro ponto é o conceito da presença, que pode ser vinculado à teoria linguística das relações in praesentia (na presença de) ou in absentia (na ausência de). Ora, partindo deste pressuposto, o próprio termo “não presencial” deveria ser abolido, já que a presença é fato ou não, podendo ser comprovada. A discussão, então, não deveria se dar em torno do problema do processo avaliativo acontecer durante um período de atividades “não presenciais” e que, no entanto, são reais, observáveis; mas sim, em torno do processo avaliativo em si mesmo e de seu valor como mecanismo que colabora com o desenvolvimento do estudante, do professor e da escola como um todo.

Retomando a teoria linguística, não faria diferença o invólucro do processo – seja este presencial ou não. O problema fundamental é exatamente o sentido que geramos neste processo. Penso que, ao se ter a oportunidade forçada de experimentar um regime de aulas não presenciais, seria salutar aproveitar a oportunidade para refletir sobre o conceito de avaliação propriamente dito. Isso inclui também pensar sobre o conceito de “cola”, que está ligado diretamente às referidas relações de poder ou domínio, que trazem à tona a fragilidade de saberes transitórios.

É possível avaliar em âmbito não presencial? Sim, totalmente possível.

É possível que ele não seja preciso, na sua tarefa de “medir” ou “quantificar” saberes? Certamente.

Mas estes, e inúmeros outros, são desafios que também se impõem à aplicação de instrumentos verificadores em aulas presenciais.

O desafio não é este. Qual é, então, a fórmula mais adequada? Infelizmente (ou felizmente) esta não existe. Determinar o que alguém sabe ou não sabe deveria se basear em outros quantificadores, voltados para realizações, para ações, para a apresentação do desenvolvimento do pensamento, do raciocínio, da lógica, da ética, da estética e da sensibilidade.

Meu segundo ponto, então, é analisar qual é a contribuição do processo avaliativo na aprendizagem. Ora, penso que fica cada vez mais claro que uma de suas principais contribuições deve ser exatamente trazer dados valiosos, que possam ajudar a tornar o processo de aprendizagem mais eficaz. O problema, portanto, não se resume unilateralmente em avaliar se alguém aprendeu ou não, mas, também, se alguém conseguiu contribuir com/para esta aprendizagem, cumprindo assim o seu papel.

 

Fechando meu raciocínio, o que fica de tudo isso, afinal de contas?

  • devemos nos desnudar dos paradigmas que norteiam nosso entendimento do processo de avaliação escolar tendo por base a nossa experiência. Como disse, ela é “nossa”, e não significa que sua repetição, em outro tempo, em outro contexto, com outros “atores”, surta o mesmo efeito;
  • não é a presença física em um determinado ambiente que garante o sucesso ou fracasso deste processo;
  • avaliação implica em acompanhamento reflexivo, ato de mão dupla, de desenvolvimento ao longo de um processo, e não em documentação “comprobatória” árida, isolada, que “prova” algo. Este tipo de pensamento simplifica perigosamente algo que é por demais belo – a aprendizagem em si mesma;
  • sendo de mão dupla, requer do agente da ação, quer seja estudante, família, professor, escola, um desejo que vai além da sua auto preservação, utilizando uma “nota” como “moeda corrente”, em uma relação utilitarista.

 

A crise serve para acelerar o desenvolvimento, na medida em que a necessidade obriga a mudança a chegar mais rápido.

A carapaça da tartaruga serve como proteção, contra o inimigo iminente. A máscara, nos dias de hoje, também.

Dar valor liberta, e o processo de avaliação tem aqui sua parcela de contribuição.

Exalto a liberdade do pensamento!

Exalto a educação libertadora!

 

 

*André Mols é Gestor de Desenvolvimento e Currículo da Escola Interamérica - Unidades I e II e músico.


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