Comunicação

A falta que a escola presencial faz…

Publicado em : 20/11/2020

 

 

A falta que a escola presencial faz…

 

por Vera Lúcia Wohlgemuth Lobo*

 

“Educar é mostrar a vida a quem ainda não a viu. O educador diz: ”Veja!” - e, ao falar, aponta. O aluno olha na direção apontada e vê o que nunca viu. O seu mundo expande. Ele fica mais rico interiormente. E, ficando mais rico interiormente, ele pode sentir mais alegria e dar mais alegria - que é a razão pela qual vivemos. Vivemos para ter alegria e para dar alegria. O milagre da educação acontece quando vemos um mundo que nunca se havia visto.”

Rubem Alves

 

Os estudos afirmam que o ser humano se torna humano na relação com outros humanos. Isto ocorre por meio do contato dos familiares com o bebê, que vai se constituindo como um sujeito de desejo, aprendendo mais sobre si e sobre o outro num processo contínuo de estruturação e reestruturação. Sem o olhar, o toque e a fala que a princípio embalam e marcam o corpo frágil do bebê, o desenvolvimento ficaria seriamente comprometido.

Com o passar do tempo, esse bebê vai crescendo e se percebendo como um ser separado do corpo de quem exerce a função materna. Neste processo de alteridade ele é colocado no mundo para poder explorá-lo com a segurança de quem se sente capaz e desejoso por saber mais sobre tudo que o cerca.

Na primeira infância a casa começa a ficar “pequena”. A criança quer explorar o mundo que a cerca e o convívio com seus pares torna-se necessário. Em 1840 foram fundados os primeiros jardins da infância, pensados como um local de convívio e de exploração do meio. De lá para cá, muitos estudos surgiram sobre a criança e seu desenvolvimento, várias teorias ajudaram pedagogos e profissionais da área da educação e do desenvolvimento a se especializarem. Já no século 12, surgem na Europa as primeiras escolas nos moldes das atuais, com crianças nas carteiras e professores em salas de aula. Eram obras de instituições de caridade católicas que ensinavam a ler, escrever, contar e, juntas, iam transmitindo as lições do catecismo.

Esta instituição tão antiga, que vem se perpetuando ao longo dos séculos, se viu impedida de funcionar em sua forma plena em pleno século 21. As escolas ficaram vazias, mas continuaram a existir sim, agora em um formato virtual. As crianças passaram a se encontrar com seus professores e colegas por meio das telas. Os olhares e as trocas de turnos durante os diálogos exigiam delas o controle de todo um aparato tecnológico. O calor humano e o toque, só com os de casa. No entanto, a escola não deixou de cumprir seu papel, ficou evidenciado o quanto ela é necessária, mesmo para as crianças da Educação Infantil, e, por isso, funcionou e conquistou seu espaço nos lares, levando conhecimento e estimulando as diferentes linguagens em prol do desenvolvimento integral dos estudantes. Assim foi o ano de 2020 quase que inteiro.

Estamos finalizando 2020, ano de grandes desafios para todos, e mais recentemente com a vivência do retorno das crianças e estudantes à escola. Um retorno tímido, com várias restrições, mas extremamente elucidativo para percebermos a falta que a escola presencial faz.

Nos relatos emocionados das famílias, ouvimos que os(as) filhos(as) estão chegando em casa com mais vivacidade, curiosidade e desejo de ler, cantar e contar tudo que aprenderam neste espaço tão fértil, repleto de estímulos e inusitado, pois, onde existe gente, existem surpresas. Fazendo um pequeno trocadilho, pode-se dizer que os estudantes são estimulados pelos “feromônios da aprendizagem” e do desejo de saber mais, onde cada indivíduo se apresenta de uma forma ímpar, mas que estimula e se sente estimulado a modificar os próprios comportamentos e o comportamento dos outros que estão ao seu redor, pois é por meio destes encontros entre os diferentes saberes que o encanto pela aprendizagem acontece.

Os estudos comprovam o quanto o convívio com pessoas reais num espaço físico real é importante para o desenvolvimento de nosso autoconhecimento, pois nos coloca frente a nós mesmos. Em grupo, e no grupo, o indivíduo se percebe e, assim, aprende a lidar com as emoções que nascem destes encontro. Desta forma, passam a respeitar as próprias emoções e as emoções dos seus pares.

Na escola, as trocas de conhecimento se dão em tempo real e são potencializadas, pois é no diálogo, na diversidade, no conflito e no confronto que os conceitos se ampliam. Isso não significa que a aprendizagem no meio remoto não tenha acontecido, pois percebemos o quanto nossos(as) estudantes desenvolveram, porém nada substitui o presencial com todas as suas singularidades. No remoto, este espaço do ”olho no olho”, do diálogo, do enfrentamento da divergência, tão necessários para o amadurecimento emocional e para a construção de conhecimento, não acontece a contento. Esta é uma vivência que não se faz presente no virtual, pois as câmeras podem desligar, a conexão cair e os enfrentamentos são adiados.

A escola é tudo isso! É espaço de trocas, de encontros, de desencontros, de brincadeiras. Nela vivenciamos momentos alegres e tristes e aprendemos a sustentar um estudo acadêmico diligente, enfrentando as dificuldades. Aprendemos, também, a manter nossos pontos de vista ou a modificá-los. Nossas facilidades se tornam motores para a superação das dificuldades e é na escola que vivenciamos toda gama de emoções advindas do árduo processo de aprender a ser e a conviver. Na escola aprendemos a aprender e nos tornamos mais humanos!

Com o passar dos ponteiros do relógio do tempo, seguimos para 2021 carregando em nossa bagagem várias interrogações e algumas certezas. Temos a convicção de que a escola aprendeu muito durante este ano e pôde aprimorar os recursos didáticos e pedagógicos, associando aspectos positivos do uso da tecnologia ao processo de ensinar e aprender na relação com o outro e com o espaço que nos cerca.

É fato de que nada substitui esse espaço que é primordial para o desenvolvimento do ser humano integral. Espaço esse que se perpetua ao longo de séculos. Que possamos valorizar cada vez mais a instituição escola!

 

*Vera Lúcia Wohlgemuth Lobo – Diretora Pedagógica

 

 


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