Comunicação

Os desacomodadores

Publicado em : 06/04/2018

Os desacomodadores

As crianças e sua capacidade de nos fazer reparar no cotidiano

cinza com muito mais cor, delicadeza e poesia

POR DIANA CORSO

____________________________________________________________________________

RICARDO FREIRE, que há duas décadas escreve aconselhando turistas com muito humor, observava desde seu primeiro livro: se você não quer ser desafiado, fique em casa. Aconselho o mesmo quanto a ter filhos ou envolver-se com crianças em geral, elas desacomodam.

Ser adulto é ficar cada dia mais chato. Não tem outro jeito, pois precisamos administrar o foco dos olhos, sistematizar, objetivar, nos orientar, vigiar os perigos e tirar as devidas conclusões para decifrar os contextos. Sem isso não sobrevivemos e viramos crianças eternas esperando que alguém olhe por nós.

Mas há outro tipo de educação da percepção, aos cuidados da arte, que faz o oposto desse esforço de concentração. Os artistas empenham-se em nos surpreender, no contato com enquadres ou detalhes inusitados, sua ênfase é no que a vida prática considera irrelevante. As crianças são naturais nisso: ainda não internalizaram as prioridades, os sistemas de pensamento dos que já precisam zelar, produzir e decidir. Seus olhos, ouvidos e mãos, alheios às regras, metem-se onde não era prescrito, só porque lhes chamou a atenção. Há um vídeo na internet chamado Caminhando com Tim Tim. É o passeio de um bebê, do tipo que em inglês chamam de toddler, os novatos na marcha. Valentim e sua mãe, a palhaça e bonequeira Genifer Gerhardt, percorrem regularmente as duas ruas que separam sua casa e a da vó. Em um feliz encontro entre a arte e a infância, Genifer nos revela o que o filho a faz ver: “Pra mim calçada, ferragem, mercadinho e chegou, pra Valentim árvores, pedras soltas que toda vez tira, coloca, busca encaixe, poças d’água”, além dos encontros com vizinhos, que ele adora saudar.

O passeio do pequeno viralizou duradouramente justamente pela voz de uma mãe recuperando os sabores de um caminho que, pelo cotidiano, tende a ser sem graça. Ela o apresenta com o tempero da poesia nascida dos interesses de Valentim. Um manjar para o paladar dos adultos estressados, que só conseguem olhar em volta quando viajam. Já os percursos do dia a dia sucumbem ao medo da violência urbana, aos engarrafamentos, ao transporte público indigno, ao esgotamento da jornada de trabalho.

“Valentim tem me ensinado que o chegar não é mais valioso que a andança”, conclui ela. Também sou grata às minhas filhas, hoje adultas, pelas frutinhas e flores das ruas que reaprendi a ver, pelos cachorros e gatos (e vizinhos) a quem fomos batizando. Um cachorro amarelo, ainda lembro, era o “Rapaz loiro”. As crianças têm o poder de transformar em turismo o opressivo cotidiano doméstico. Quanto a nós, é preciso crescer o suficiente para não termos medo de perder o rumo se nos divertirmos pelo caminho.

DIANA CORSO é autora do livro Tomo Conta do Mundo – Conficções de uma Psicanalista.

Observação: em ano anterior compartilhamos o vídeo “Caminhando com Tim Tim”. Segue o link novamente:

https://youtu.be/UU5-hkBH2rw


“Gentileza gera gentileza”

“Gentileza gera gentileza”

 20/04/2018

O medo do desamor e de errarmos, como pais, têm nos deixados paralisados, inseguros e sem saber o que fazer.


O que gritos e castigos dos pais e professores podem fazer com o cérebro das crianças

O que gritos e castigos dos pais e professores podem fazer com o cérebro das crianças

 20/04/2018

Isabela Minatel explica como os cérebros das crianças reagem à gritos, brigas e castigos e como praticar uma educação que libere os neurotransmissores da felicidade.


Contrato para uso do celular

Contrato para uso do celular

 14/04/2018

Há muito venho falando sobre a importância da educação digital para adolescentes e crianças. Que inclusão digital não se restringe à entrega dos equipamentos informáticos. Uma verdadeira inclusão digital passa necessariamente pela educação do incluído, mostrando as vantagens e também os riscos da tecnologia, para que não seja surpreendido, e principalmente, ensinando como tudo isso funciona. Especialmente para esses jovens que já nasceram com a internet e que não conseguem imaginar tudo que está por trás desse "admirável mundo novo".

Em casa eu não poderia ser diferente. Com o apoio de Luciana Maciel buscamos orientar nossas filhas, desde sobre os problemas da dependência tecnológica como também sobre as armadilhas que a internet esconde.

De aniversário de 10 anos (sei que ainda é nova, mas uma das últimas a ter o celular na escola), a Caetana ganhou seu primeiro celular. Não usa o tempo inteiro ainda. Há muitos limites. Regras que foram traçadas num "contrato", o qual ela teve que aderir.

Inspirado, porém completamente reformulado, na versão de Janell Burley Hofman, sintam-se livres para compartilhar esse contrato ou utilizar com seus filhos.


O que tem deixado crianças e adolescentes tão tristes e depressivos? Como resgatá-los? Especialistas orientam

O que tem deixado crianças e adolescentes tão tristes e depressivos? Como resgatá-los? Especialistas orientam

 05/04/2018

Fragilidade emocional, frustrações, estrutura familiar. Crianças e adolescentes, que deveriam descobrir a vida de maneira prazerosa, ainda que com suas delícias e dores, sofrem. ? Qual o papel dos pais, da família, dos amigos, da escola e da sociedade? São todos responsáveis? Como cada uma dessas esferas pode agir para resgatá-los da imersão nessa escuridão que os faz desistir de seguir em frente?


Histórias incríveis de vida

Histórias incríveis de vida

 22/03/2018

Com uma história de superação incrível, Tejon ensina a transformar adversidades da vida em força, para realizar sonhos. Autor de dezenas de livros, entre eles o best-seller “Guerreiros não Nascem Prontos”, é considerado uma das maiores autoridades em liderança, motivação e superação humana.


Educação sem blá-blá-blá (ENTREVISTA)

Educação sem blá-blá-blá (ENTREVISTA)

 19/03/2018

Educar não é fácil, muito menos nos tempos atuais. A sociedade tem passado por muitas transformações, e os pais se veem, tantas vezes, completamente perdidos. É o que evidencia a psicóloga Rosely Sayão em seu recém-lançado livro Educação sem blá-blá-blá (Ed. Três Estrelas, 2016).


Os filhos que sonhamos

Os filhos que sonhamos

 16/03/2018

É consenso que todo pai e mãe almejam o melhor para seus filhos. Nessa relação parental, as escolhas vão sendo pautadas na qualidade, no desejo de acertar e na busca de educar da melhor forma.


Emoções e relações na escola: estratégias para o autoconhecimento

Emoções e relações na escola: estratégias para o autoconhecimento

 09/03/2018

Sabe-se que todo SER HUMANO traz consigo a história da sua família contada pelos seus ancestrais, os costumes, a cultura, as maneiras de lidar com os outros, consigo, com o ambiente, a vida e as emoções decorrentes desse processo.


A vida tem dessas surpresas

A vida tem dessas surpresas

 08/03/2018

É fato que planejamos nossas vidas. Fazemos planos a curto, a médio e a longo prazo e em boa parte desses planos somos surpreendidos. Me lembro que quando criança fui surpreendido com um videogame no dia do meu aniversário (excelente surpresa!). Me lembro do meu tempo de escola, quando me surpreendi com uma nota baixa em uma prova que eu havia estudado bastante (péssima surpresa!). Me recordo também da surpresa ao ver o resultado do meu primeiro vestibular (essa prefiro esquecer). Tenho certeza que você leitor também poderia relatar inúmeras surpresas ao longo de sua vida; boas, ruins e aquelas que não gostamos de lembrar.


A atração irresistível pelo computador

A atração irresistível pelo computador

 02/03/2018

Nas palestras para pais, sempre há perguntas a respeito do uso do computador e do celular: "Meu filho não desgruda dos jogos, às vezes deixa de comer e até de tomar banho...