Comunicação

O afeto é algo que se aprende

Publicado em : 15/02/2019

 

"Afeto é algo que se aprende"              

         

 

por Bianca Sordi Stock*

 

Na vida, passamos por diversos tipos de aprendizagem: matemática, línguas, ciências naturais, ciências humanas etc. A lista é extensa e quem frequenta a escola sabe bem do que eu estou falando. Conteúdos importantes, cada um nos ensinando a olhar a vida de um jeito novo.

Posso, por exemplo, visitar uma cidade diferente e conhecê-la com as chaves das minhas aprendizagens: “Nossa, que cidade pequena! Quantos habitantes ela tem? E estes prédios antigos, que bonitos! Quando foi fundada? Qual é sua história? Onde ela se localiza no mapa? Que natureza diferente de onde eu vivo... Quais bichos, flores e árvores existem por aqui?”. E com estas e outras percepções e perguntas seguimos aprendendo...

Contudo há um tipo de aprendizagem especial que começa desde que nascemos e por toda a nossa vida seguiremos fazendo: a aprendizagem dos afetos. Quando somos bebês, temos a possibilidade de aprender, pelo afeto recebido daqueles que nos cuidam, que somos seres únicos, especiais e cheios de potencialidades. Vamos crescendo e, junto com o aprender a falar, caminhar, comer sozinho, fazer xixi no penico, podemos aprender também que, para sermos especiais e ter o amor daqueles que estão à nossa volta, o mundo não precisa girar sempre ao redor do nosso próprio umbigo.

ENCONTROS

Crescemos mais um pouco e as nossas relações com as pessoas e o mundo aumentam. Cada vez nos expandimos mais, crescendo em altura e em amigos e, junto com o aprender a contar, ler, andar de bicicleta, podemos aprender a contar com os amigos e eles aprendem a contar com a gente para o que der e vier. Podemos aprender que a vida é um bem que devemos preservar em todas as suas expressões: a água, os animais, as florestas, as cidades e seus meninos, as flores, os idosos, o nosso corpo, as nossas amizades e a nossa família.

Na juventude, vamos tendo mais consciência destas aprendizagens, podendo fazer o movimento de olhar para elas e dizer para os outros quais aprendizagens dos afetos conseguimos realizar: confiar mais em si, escutar mais os outros, ter medo de algumas coisas, saber de nossas limitações e capacidades.

E onde estas aprendizagens dos afetos acontecem? Na escola? Também, mas para elas não é possível apenas um período de 50 minutos por semana. Acontecem na vida, fundamentalmente, nos encontros que fazemos com a vida. É nos encontros - com as pessoas, com os bichos, com os cheiros, com os lugares - que experimentamos a alegria ou a tristeza, aquilo que nos faz ser mais, cheios de vida, ou aquilo que nos faz ser menos, tristes, que empobrecem a nossa vida. Quanto mais estivermos abertos a diferentes encontros, mais a nossa vida ganhará movimento, torna-se interessante e rica em afetos.

CUIDADO RECÍPROCO

Para experimentarmos o novo, e o novo em nós, necessitamos de um espaço para que todas estas emoções despertadas nos encontros possam se organizar dentro da gente. Como assim? Acontece que não dá para só experimentarmos emoções novas se não conseguimos dar um sentido para elas em nossa existência. É como se a gente passasse o tempo todo viajando para lugares diferentes no mundo, mas deles não guardássemos nada. Ficaríamos tão atordoados com tantas coisas vividas que seria como se não tivéssemos conhecido nada de verdade. Tudo passa, nada fica. Tudo passa muito rápido e a gente não consegue acompanhar nem a gente mesmo. Por vezes, confundimos viver intensamente com viver apressadamente. A intensidade da vida se dá na qualidade das experiências vividas e isto requer de nós uma outra relação com o tempo.

Na arte, assim como nos grupos em que partilhamos a vida, grupo de jovens, grupos terapêuticos, na nossa família, encontramos maneiras de expressar o mar revolto de afetos que mora em nós. A dança, o teatro, a fotografia, a poesia e todas as outras formas de arte são, como os grupos, espaços de produção coletiva. O artista não faz arte para seu “próprio consumo”. Ele dialoga com o mundo, inventa a vida e outros modos de vivê-la. Pensando assim, todos nós podemos ser artistas da vida e ter a possibilidade de experimentar a alegria que ela carrega em si.

E no mundo em que a gente está vivendo, onde tudo é tão rápido e superficial, onde somos abarrotados de informações e estímulos, apostar nos modos de viver a vida coletivamente em recíproco cuidado é o que há de mais revolucionário para lutar.

Para refletir :

1 - Como cuido e como devo cuidar dos meus afetos?
2 - Que dificuldades encontramos em nossas relações afetivas: família, amigos e colegas?

 

*Bianca Sordi Stock - Psicóloga clínica, do mestrado em Psicologia Social da UFRGS

Fonte: Artigo publicado na edição nº 387, jornal Mundo Jovem, junho de 2008, página 2.

 

 

 


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