Comunicação

It is up to you!

Publicado em : 05/04/2019

It is up to you!

by Flaviane Montes[1]

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Ao longo de minha vida profissional como professora de inglês e como coordenadora pedagógica, tive que responder a uma série de perguntas de pais de alunos. Uma das perguntas mais frequentes continua sendo: “Qual a idade ideal para que eu coloque meu(minha) filho(a) em uma aula de inglês?”. Diante dessa e de outras questões na mesma temática, penso: “Por que eu tenho que responder a essa questão se ela depende de uma resposta que eu não tenho?!” Não tenho resposta, não porque não a quero ter, mas porque ela depende, de fato, de quem me fez a pergunta. Para mim, aliás, depende de uma série de fatores.

Quando criança, eu não fui “colocada em uma aula de inglês”. Pela formação dos meus pais, por suas condições financeiras e pelos sonhos que eles tinham para mim, não achavam que isso era relevante no momento. Seus pensamentos e ações para comigo estavam em outras “necessidades” que não aquela. E eu os respeito e os amo por isso. Meus pais não sabiam, mas eles me fizeram ver a necessidade de eu mesma desejar minhas aulas de inglês.

Desejo, aliás, um termo importante, “ato ou efeito de desejar; tendência da vontade a buscar o conhecimento, a posse ou o desfrute de alguma coisa”, de acordo com o Dicionário Michaelis[2], me remete ao que parece ser inerente a qualquer ação. Pensamos sobre a questão quando comentamos com colegas sobre levantar de manhã e ir para o nosso trabalho; quando, apesar de difícil fazer aquela pós-graduação, nos debruçamos sobre os livros a serem lidos e os artigos a serem escritos e apresentados. Isso e tudo o mais que fazemos diariamente só é possível porque, de certa forma, sentimos o desejo da realização. Até mesmo Pennycook (2001; 2004), um renomado pesquisador australiano, professor na UTS (University of Technology Sydney), autor de muitos livros, e que me encanta por seu trabalho crítico aos estudos da linguística aplicada, discute e defende que a práxis real é a integração reflexiva contínua entre pensamento, desejo e ação. Citação essa já feita pelo célebre educador Paulo Freire (1985).

No contexto da minha adolescência, eu tive algumas possibilidades de aprender o idioma falado nos filmes da Sessão da Tarde (eu sabia disso devido aos movimentos das bocas dos personagens e ao posicionamento da língua dos mesmos, enfim) e apresentado nas músicas de Michael Jackson e Madonna (my first teachers!) que eu ouvia na rádio. As letras e as melodias de Bad e La Isla Bonita ainda estão em minha mente.... Desculpem-me os que desgostam do gênero pop, mas eu aprendi! As fitas cassetes que iam deixando de ser as preferidas de minha mãe se tornaram ferramentas potentes para a gravação das músicas. A hora em que o programa TOP 10 ia ao ar era o momento de me trancar no quarto porque logo em seguida vinha a “tradução do dia”. Wow! Como eu aguardava aquele momento!Era a oportunidade de saber o que eu estava cantando, já que imitar a pronúncia dos meus ídolos era ponto imprescindível no momento do “estudo”.

Hoje, vejo que com a multiforme possibilidade de acessos por grande parte da população ao meu redor ao mundo digital e suas muitas e inegáveis vantagens, poderia ser muito mais fácil aprender qualquer coisa que se desejasse. De fato, as possibilidades são reais, mas... e o desejo de se aprender algo com elas?O título deste texto tem a ver com isso. It is up to you é uma expressão em língua inglesa que significa “cabe a você”. Não me levem a mal, não pensem que sou mal-educada, por favor! Mas penso nessa frase como uma resposta quando ouço a pergunta que me é feita com frequência como descrevi no início deste texto. Penso nela também quando me deparo com casos em que as crianças me dizem não terem tempo para fazerem a tarefa de casa. Me preocupa tanto ver como algumas famílias desejam tantas prioridades. Não ter tempo para fazer a tarefa de casa por terem uma agenda cheia de compromissos, tantas aulas de conteúdos diferentes, com idas e vindas sem fim em um trânsito caótico como o nosso, faz dessas crianças melhores, mais sabidas que as outras?! Onde estão os seus próprios desejos?! É isso mesmo o que elas querem?!

Ao me tornar uma jovem, vi minha vida tomar um rumo totalmente diferente do que meus pais planejaram para mim. Eu decidi realizar meu sonho de ser falante competente de língua inglesa. Era o que eu desejava! Achava que não sabia o suficiente para me comunicar mais, para falar melhor, para fazer minhas sonhadas viagens... Assumi que era isso mesmo que queria e enfrentei um curso de graduação em Letras na universidade. O primeiro dia de aula foi memorável! Nunca o esquecerei! Uma professora muito atenta, cheia de desejo de nos encantar, me atraiu para esse fazer que nunca mais deixei (e nem pretendo at all!). Ela falava de um jeito tão claro e... eu entendia... TUDO!

Pouco tempo mais tarde, ao ler bell hooks[3] (2010), tive a grata surpresa de ser acolhida por uma frase que me serviu, além de deleite, abertura de um dos capítulos de minha dissertação de mestrado: I think life experiences are different for people who know what they want as children[4] .É... Eu passei a saber que eu já sabia o que queria ser quando crescesse depois que cresci.

Hoje vejo as dúvidas de algumas famílias como desejando o melhor para seus(suas) filhos(as), sim, porém perdidos em meio a uma oferta grande demais. Nesse sentido, sugiro: ouçam o que as crianças e os jovens têm a lhe dizer! Detenham um tempo para que suas escolhas sejam compartilhadas e seus desejos sejam manifestados por meio de uma brincadeira, de uma conversa mais informal, de um abraço mais demorado, da leitura de um livro novo, de um perfume de comida sendo preparada... Considerem-nos(as), quando optarem por colocar ou não em uma escola de inglês...

It is up to you!

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[1]Flaviane Montes é Educadora e Coordenadora Pedagógica das Equipes de Inglês, 1º e 2º Anos da Escola Interamérica, Unidade 1

[2]Dicionário Michaelis em: https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/desejo

[3]bell hooks é o pseudônimo de Gloria Jean Watkins. O codinome que ela escolheu para assinar suas obras é uma homenagem aos sobrenomes da mãe e da avó e o escreve com letras iniciais minúsculas, pois deseja que a sua mensagem, e não o seu nome, seja focalizada.Assim, neste texto, esse desejo é respeitado em sua citação. Disponível em: http://mardehistorias.wordpress.com/2009/03/07/bell-hooks-uma-grande-mulher-em-letras-minusculas/

[4]Tradução minha: "Eu acho que as experiências de vida são diferentes para as pessoas que sabem o que querem como crianças".

 

Referências Bibliográficas:

HOOKS, B. Teaching to transgress: education as a practice of freedom. New York/London: Routledge, 1994.

MONTES, F. Formação Crítica Docente:Uma experiência com seis professoras de Inglês de Educação Infantil e 1ª fase do Ensino Fundamental. Dissertação (Mestrado em Letras e Linguística) - Faculdade de Letras, Universidade Federal de Goiás, Goiânia, 2014.

PENNYCOOK, A. Critical Applied Linguistics: a critical introduction. New Jersey: Lawrence Erlbaum Associates, 2001. 129

______. Critical moments in a TESOL praxicum. In: NORTON, B.; TOOHEY, K. (Eds.). Critical pedagogies and language learning. Cambridge: CUP, 2004. p. 327-345.


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