Comunicação

Diálogo com um adolescente: tarefa impossível?

Publicado em : 01/03/2019

 

"Diálogo com um adolescente: tarefa impossível?"              

         

 

por Felipe Souto*

 

Me coloco no lugar de um pai/mãe de um adolescente e imagino a alegria e a angústia que deve ser perceber o crescimento do filho. Digo isso baseado em algumas queixas que ouço como: “meu filho só quer ficar no celular”, “minha filha acha que só falo com ela pra pegar no pé”, “ele não sai do quarto pra nada”, “não tenho mais assunto com meu filho”, “ele não era assim até ano passado”, “toda conversa nossa acaba em briga”...e por aí vão as queixas. Já cheguei a ouvir a seguinte frase “não reconheço mais o meu filho”. No entanto, por mais que pareça impossível, esse diálogo com o seu filho é possível.

Antes de qualquer coisa é preciso lembrar que cada indivíduo é único (ainda bem). Na área da genética há um termo conhecido como genetic fingerprint, expressão a qual se refere a características do DNA que permitem diferenciar cada indivíduo [1]. Eu poderia citar apenas o fator genético para demonstrar a diferença que há entre cada pessoa. Porém a diferença se torna mais evidente, com outros fatores mais subjetivos, quando o assunto é pais e filhos (adolescentes principalmente). Os gostos já não são mais os mesmos, o interesse pelo diálogo é perdido, o isolamento é comum, o filho já não demonstra mais interesse em estar com a família, apenas com os amigos!

Mas diante das diferenças e conflitos, o que devo fazer para me reaproximar dele? Como conseguir uma conversa sem que acabe em discussão? Como voltar a ter um programa juntos? Na verdade, não há uma fórmula para isso, até porque cada adolescente vivencia essa fase de uma maneira bem singular e única. Porém, há um caminho que pode ser o início do reestabelecimento de uma boa relação: o diálogo. Quando me refiro ao diálogo, não estou citando aquele diálogo autoritário, cheio de razão, executor. Me refiro a um diálogo sobre algo que o adolescente queira conversar.

Tenho uma tarefa de casa para você, leitor: pergunte a seu filho sobre o que ele gosta de conversar com os amigos. Adianto que você deve se preparar para respostas bem diversas!!! E aí a pergunta agora é: você está preparado para conversar com ele sobre o que ele quer conversar? Um segredo (que nem é tão segredo assim) é que adolescentes gostam de ser ouvidos. Às vezes me deparo lendo, estudando sobre assuntos que não tenho o menor interesse, mas sei que um ou outro estudante gosta. Por exemplo, esse ano andei lendo sobre dinossauros, pois tenho um estudante fascinado por esses animais. Minha primeira conversa com ele foi terrível, pois ele me deu um “show” ... Vi que eu não sabia nada sobre o assunto!!! Descobri que tinha que estudar mais para um diálogo “fluente”. Hoje, esse estudante adora conversar comigo sobre dinossauros, não que eu seja expert no assunto, mas diria que hoje a conversa flui melhor.

Mas e se o assunto que seu filho quiser falar com você seja sobre futebol, k-pop, Shawn Mendes, um filtro novo do Instagram, menino/menina a qual ele começou a se interessar, professor com o qual ele(a) tem dificuldade de relacionamento (listei alguns assuntos que todos os anos aparecem)? Você está preparado para conversar sobre esses assuntos, sem qualquer julgamento? Pode parecer que sou defensor de que todos os pais devam ser permissíveis e simplesmente aceitem tudo que os(as) adolescentes gostam. Mas não é por aí...costumo dizer que existem valores e princípios que são INEGOCIÁVEIS. Desses valores, a família não deve abrir mão, até porque se o fizessem, estariam colocando em risco a saúde do desenvolvimento do(a) filho(a). Mas até isso deve ser dialogado. Explique para ele o quê e o porquê você não abre mão.

Encerro por aqui essa reflexão com a seguinte sugestão: dialogue com menos imposições. Lembre-se que o seu mundo talvez seja um mundo diferente do que seu filho está inserido, afinal vocês são diferentes (fingerprint). Não se esqueça de fazer a tarefa de casa passada ao longo do texto e, se quiser, em alguma oportunidade, me conte como foi essa conversa. Talvez o início será difícil, mas tenho certeza que você consegue. Afinal, lá no fundo, seu filho quer conversar com você sobre os mais diversos assuntos. Concluo com uma frase que ouço em vários atendimentos: “gostaria de poder conversar sobre isso com meu pais, mas eu tenho certeza que eles irão me criticar e não irão me entender”.  Talvez o(a) seu(sua) filho(a) se distanciou por falta de diálogo. Pense sobre isso e reflita.

_________

[1] University of Leicester - Department of Genetics and Genome Biology. Alec Jeffreys and Genetic Fingerprinting. Disponível em: <https://www2.le.ac.uk/departments/genetics/jeffreys >. Acesso em 01 mar 2019

 

*Felipe Souto é Orientador Educacional do 7º Ano, Biológo e Mestre em Genética e Biologia Molecular.

 

 

 


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