Comunicação

Cazuza e meu bildungsroman

Publicado em : 22/02/2019

 

"Cazuza e meu bildungsroman"              

         

 

por André Mols*

 

Um dos passeios dos quais eu mais gostava, quando criança, era a visita à casa do padrinho do meu irmão, Sr. Cipriano. Nestes dias de visita, minha satisfação não era saber a senha do wi-fi. Era poder acessar a biblioteca da casa, que, apesar de menor do que a que tínhamos, possuía títulos diferentes, e eu passava aquelas horas a verificar quais eram as novidades, e a retomar os livros que eu já conhecia. Sr. Cipriano trabalhava na Imprensa da Universidade, e, assim, além de livros de editoras mais conhecidas ele tinha em casa também livros de edições mais limitadas, lançados localmente, além de jornais e revistas menores, mas não menos importantes, os quais me agradavam muito, em especial quando traziam histórias sobre o Estado de Goiás e a cidade de Goiânia, assuntos estes que muito interessavam a meu pai também.

Em uma destas visitas, um livro em particular me chamou a atenção. O título era “Cazuza”, de Viriato Corrêa, publicado pela primeira vez em 1938. Passei o dia com o livro na mão, fascinado com sua leitura. Quando a visita terminou, tomei coragem, conversei com meu pai e pedi o livro emprestado ao Sr. Cipriano. Fui prontamente atendido, levei Cazuza para casa, terminando a leitura ao longo da semana seguinte. Devo dizer que o texto era extenso, sem ilustrações, mas ainda assim era muito interessante. Um dos motivos que me fizeram lê-lo foi o mote do texto – o relato de Cazuza – o próprio autor – de sua vivência na escola – em última análise, de sua escolarização como rito de passagem. O outro foi a maneira como ele dissecou, em tom memorialista, o cotidiano da escola primária no período compreendido entre o fim do século XIX e início do século XX, narrando a experiência que teve ao ir para a escola no vilarejo em que morava, Pirapemas, no interior do Maranhão. Pensei muito sobre o assunto, analisando a escola que eu frequentava em relação àquela da narrativa. De qualquer maneira, devolvi o livro a seu dono, agradecido pela oportunidade, e pedi a meu pai que adquirisse um exemplar. Mesmo quando adulto, já professor, comprei outras edições mais recentes, satisfeito com o fato do livro não ter caído no esquecimento.

No contexto da teoria da literatura, Cazuza se encaixa no que chamamos de romance de formação, ou bildungsroman, em alemão. Focados num protagonista jovem, estes livros mostram as mudanças dos personagens na sua formação ou na transição para a idade adulta. A ideia é mostrar como pode ser difícil e aterrador sair da adolescência e chegar ao mundo adulto, colocando nossos sentimentos e valores em cheque.

Este é um assunto recorrente, já que, ao ler outros romances de formação, como As aventuras de Huckleberry Finn, de Mark Twain; O ateneu, de Raul Pompéia; O apanhador no campo de centeio, de J.D. Salinger; Memórias sentimentais de João Miramar, de Oswald de Andrade ou ainda A montanha mágica, de Thomas Mann; o que chama a atenção, em minha opinião, é o acesso a um recorte do riquíssimo processo de desenvolvimento de uma pessoa, as transformações pelas quais passou, o que sentiu, como chegou à idade adulta, a partir do olhar sobre si mesmo. O que realmente nos toca é perceber que, ao fim e ao cabo, passamos por uma enormidade de situações semelhantes, e outras tantas completamente diferentes, e ainda assim somos Sapiens[1]. Naturalmente, somos um e muitos ao mesmo tempo. Pode parecer um pouco confuso o que digo, mas a ideia é que somos todos iguais em nossas múltiplas diferenças e idiossincrasias. Somos únicos em nossas individualidades, mas somos absolutamente semelhantes em nossas necessidades primordiais. Somos contraditórios por definição.

A contradição nos marca fundo, e o que vem de fora contribui, ao trazer a lume possibilidades, imagens, sons, cores, cheiros, dúvidas e certezas, teses, antíteses e sínteses que duram mais ou menos, de acordo com a velocidade com que chegam as refutações ou mais perguntas. Somos ansiosos por informação. Fomos antes, mas não nessa velocidade. Ao estudar o processo de desenvolvimento dos caçadores coletores comparado com a vida dos seres humanos nos últimos 200 anos, percebemos que nossa vida tem sido constituída cada vez menos por permanências e cada vez mais por transitoriedades. Como conhecer algo de fato se não nos atemos, se não refletimos, se ansiamos pela próxima postagem no feed da rede social mais do que pelo ar que respiramos?[2]

O mundo mudou. A frase é repetitiva e lugar comum, no entanto, é fato. Muito em breve, começaremos a usar o DNA como espaço para armazenamento de dados. Quando eu era criança, assistia à série “O homem de seis milhões de dólares”, que apresentava um personagem com poderes sobre humanos. Tenho um bom amigo que no ano passado fez duas cirurgias de prótese nos joelhos – ambos agora têm um mecanismo de titânio substituindo o joelho original. Meu amigo é biônico? É um ciborgue? Não é mais 100% humano? Isso é um problema?

Em minha formação, tive tempo para ler. Tive tempo para brincar. Tive tempo para conversar. Tive tempo para pensar. Tive tempo para procurar informações em enciclopédias e compêndios que me abasteciam, nutrindo, à medida em que as reflexões se constituíam em mim, meu desejo processual de buscar mais conhecimento. Inexoravelmente, a primeira constatação nesta aventura deve ser a máxima socrática do só sei que nada sei. Conhecimento é poder, mas deveria acima de tudo ser humildade. Conheci Cazuza na literatura, que, diga-se de passagem, é muito mais do que fruição - e ele me contou como foi o processo dele. Lembro-me ainda hoje, 40 anos depois da leitura.

Você se lembra de quantos posts viu em redes sociais ontem?

Cobramos muito de nossas crianças e adolescentes e muitas vezes não permitimos a eles que construam o seu próprio bildungsroman. Queremos que eles se lembrem. Queremos que eles saibam. Queremos que eles façam. Queremos que eles sejam capazes. Queremos que eles nos contem tudo. Queremos que eles tenham certeza de tudo. Queremos que estejam preparados – mesmo que para algo que nem nós, e muito menos eles, compreendem.

Queremos que eles sejam felizes, para sempre felizes.

Isso é viver?

_________

[1] HARARI, Y. N. Sapiens: uma breve história da humanidade. São Paulo: L&PM, 2016.

[2] WURMAN, R. S. Ansiedade de Informação 2. São Paulo: Cultura, 2001. Wurman afirma que “informação é poder”, dizendo que “estamos num frenesi para obtê-la, acreditando que informação significa mais poder”. O que acontece é exatamente o contrário. “O exagero na quantidade de informação começa a nublar as diferenças marcantes entre dados e informação, entre fatos e conhecimentos fazendo com que nossos canais de percepção entrem em curto-circuito” e ainda “Muita informação nos faz parecer aquele sujeito que está prestes a morrer de sede, mais foi condenado a tirar água do poço com um dedal”. O volume de informação disponível e a forma como ela é transmitida implica no risco de que uma grande parte dela se torne inútil. Pouco importa muito conhecimento se não se sabe usá-lo ou se não for usado.

 

*André Mols é Gestor de Desenvolvimento e Currículo da Escola Interamérica - Unidades I e II e músico.

 

 

 


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